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Alarmes inteligentes e a redução de 94% nas tentativas de furto: o que esse dado significa de verdade

17/07/2026 7 min de leituraAnálise com dados
Alarmes inteligentes e a redução de 94% nas tentativas de furto: o que esse dado significa de verdade

O dado circula bastante no setor de segurança eletrônica: ambientes com monitoramento ativo registram fracasso em 94% das tentativas de roubo. A fonte é a Associação Brasileira de Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (ABESE), que coleta registros de centrais de monitoramento associadas no Brasil. Mas o que esse número mede exatamente, quais são seus limites e o que ele diz sobre como alarmes inteligentes funcionam na prática? Este artigo responde essas perguntas com os dados disponíveis e sem exagero.

De onde vem o dado dos 94%

A ABESE é a principal entidade representativa do setor de segurança eletrônica no Brasil. O número de 94% de tentativas frustradas em propriedades monitoradas foi coletado a partir dos registros de ocorrências reportados pelas centrais de monitoramento associadas à entidade. O dado foi amplamente divulgado em 2022 pelo portal NSC Total e posteriormente referenciado por publicações especializadas do setor.

É importante entender o que o número mede. Ele representa a proporção de tentativas de invasão a propriedades com monitoramento eletrônico ativo que não resultaram em roubo consumado. Isso inclui dois grupos distintos: invasores que desistiram ao perceber o sistema (efeito dissuasório, antes de qualquer contato físico com a propriedade) e invasores que iniciaram a tentativa mas foram interrompidos pela resposta do sistema (sirene, contato da central, viatura). O dado não é um experimento controlado com grupo de controle: é uma medida operacional de ocorrências registradas em um universo de propriedades monitoradas.

Um dado complementar ajuda a contextualizar o efeito dissuasório. Um estudo sobre comportamento criminoso em furtos residenciais apontou que 80% dos autores de furtos e roubos analisa previamente o alvo para identificar a presença de alarme ou monitoramento. Desses, a maioria desiste antes mesmo de tentar. Apenas 13% prossegue com o plano mesmo diante de propriedade com sistema ativo.

O que os estudos acadêmicos mostram

No campo acadêmico, a referência mais abrangente é uma revisão sistemática da Campbell Collaboration que analisou 44 estudos sobre o impacto de câmeras de videomonitoramento em taxas de criminalidade. Os resultados são mais matizados que os dados setoriais: há redução estatisticamente significativa em crimes contra propriedade em estacionamentos (média de 51% de redução em roubos de veículos) e em áreas residenciais privadas (redução geral de cerca de 12%). Não foram encontrados efeitos robustos sobre crimes violentos em espaços públicos, o que indica que a tecnologia tem impacto mais consistente quando aplicada em contexto de propriedade privada delimitada, com sistema de resposta ativo.

Uma metanálise de 76 programas de videomonitoramento, apresentada pela plataforma Crime Solutions do National Institute of Justice dos Estados Unidos, classifica a tecnologia como "promissora" para reduzir crimes contra a propriedade. A diferença de resultados entre estudos está fortemente associada à presença ou ausência de protocolo de resposta: câmeras passivas, sem central monitorando e sem resposta ativa, têm impacto muito menor do que sistemas com resposta integrada.

Alarme convencional e alarme inteligente: a diferença que os dados não mostram

Os dados da ABESE cobrem sistemas com monitoramento eletrônico ativo, não alarmes isolados. Esse detalhe é relevante porque a diferença entre um alarme convencional e um sistema inteligente monitorado é operacionalmente significativa.

Um alarme convencional detecta movimento, dispara a sirene e, em sistemas mais simples, envia uma notificação ao celular do proprietário. Sem central de monitoramento, a resposta depende inteiramente do proprietário estar disponível, acordado e com acesso rápido às câmeras para confirmar o evento e chamar ajuda. A taxa de falsos alarmes de sistemas baseados em sensor de movimento por infravermelho passivo, sem IA, pode chegar a 95% das notificações, segundo levantamento de fabricantes do setor. Isso condiciona o proprietário a ignorar notificações com frequência.

Um alarme inteligente com IA embarcada opera de forma diferente em pelo menos quatro pontos:

  • Detecção seletiva: algoritmos de visão computacional classificam o objeto em movimento antes de disparar o alerta. Pessoa, animal e veículo recebem tratamento diferente. A notificação só chega quando uma pessoa é identificada.
  • Evidência desde o início: a câmera está gravando e analisando continuamente. Quando a detecção ocorre, a gravação do momento anterior ao alerta também é preservada, capturando o comportamento do invasor desde a aproximação.
  • Resposta com ou sem o proprietário: integrado a uma central de monitoramento, o sistema aciona protocolos de resposta independentemente de o proprietário estar disponível. O analista da central confirma a ameaça em segundos e executa o protocolo.
  • Verificação remota imediata: o proprietário recebe o clipe do evento diretamente no aplicativo, com qualidade suficiente para confirmar ou descartar a ameaça em segundos, sem precisar de acesso à câmera ao vivo por streaming.

Aplicação em comércios: o perfil de risco específico

Comércios têm um perfil de risco diferente de residências. O furto comercial pode ocorrer durante o horário de funcionamento (furto por clientes ou funcionários) ou fora dele (arrombamento). Os dados da ABESE e do setor de segurança eletrônica indicam que os crimes no horário de fechamento são os mais frequentes em pequenos comércios, especialmente em cidades litorâneas durante a baixa temporada, quando as ruas ficam menos movimentadas.

Para comércios, as câmeras com análise por IA têm uma função dupla que vai além da segurança patrimonial: registros internos, controle de acesso de funcionários e verificação de ocorrências com clientes também são casos de uso relevantes. Sistemas integrados permitem que o proprietário consulte gravações remotamente por data, hora e câmera específica, sem precisar estar no local ou ter acesso ao DVR físico. Essa funcionalidade tem valor operacional direto em situações como contestação de chargeback, confirmação de horário de entrega ou verificação de incidentes com funcionários.

Limitações do dado e o que não está no número

Dois pontos de honestidade intelectual sobre o dado dos 94%: primeiro, ele não controla o perfil das propriedades protegidas. É razoável supor que imóveis com monitoramento ativo são, em média, mais bem protegidos em outros aspectos também (cercas, iluminação, localização). Isso significa que parte do efeito pode ser correlação com outros fatores, não causalidade direta do monitoramento. Segundo, o dado mede tentativas registradas. Invasões bem-sucedidas sem ativação do sistema (por exemplo, desativação prévia de sensores) podem não estar representadas na contagem.

Isso não invalida o número, mas coloca o contexto correto: monitoramento eletrônico ativo é uma das camadas mais eficazes disponíveis para proteção de propriedade privada, com base em evidências setoriais e estudos acadêmicos convergentes. Não é, sozinho, garantia absoluta de proteção. É parte de um projeto de segurança em camadas que inclui barreiras físicas, iluminação, controle de acesso e resposta ativa. A eficiência do sistema depende diretamente da qualidade da instalação, da manutenção regular dos equipamentos e da presença de uma central de monitoramento com protocolo de resposta ativo.

O dado no contexto brasileiro: apenas 15% dos lares têm segurança eletrônica

Um levantamento publicado pelo NSC Total em 2018 indicava que apenas 15% dos lares brasileiros possuíam algum sistema de segurança eletrônica. Dados mais recentes de 2022 da mesma fonte mostravam que 53% dos brasileiros pensavam em instalar alarme, reflexo do crescimento da percepção de insegurança no período. O mercado de segurança eletrônica no Brasil cresceu consistentemente nos últimos anos, impulsionado pela queda de preço das câmeras IP, pela popularização dos sistemas de monitoramento por aplicativo e pelo aumento da oferta de serviços de monitoramento com custo mensal acessível.

O contraste entre a efetividade documentada dos sistemas e a baixa penetração no mercado residencial sugere que o maior obstáculo não é técnico: é a combinação de desconhecimento sobre o que os sistemas modernos fazem de diferente dos antigos e a percepção de que segurança eletrônica é cara. Em muitas cidades do Litoral Norte, propriedades vizinhas com níveis muito diferentes de proteção convivem no mesmo quarteirão, o que torna a escolha do alvo mais fácil para quem observa o entorno antes de agir.

Perguntas Frequentes:

De onde vem o dado de 94% de redução em tentativas de furto com alarme?
O dado é da Associação Brasileira de Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (ABESE), coletado a partir de registros de ocorrências de centrais de monitoramento associadas no Brasil. Ele representa a proporção de tentativas de invasão a propriedades com monitoramento eletrônico ativo que não resultaram em roubo consumado, incluindo tanto invasores que desistiram ao perceber o sistema quanto os que foram interrompidos após iniciar a tentativa. Não é um experimento controlado, mas uma medida operacional de um grande universo de ocorrências registradas.
Alarmes inteligentes com IA são muito mais caros que alarmes convencionais?
A diferença de custo entre um alarme convencional e um sistema com câmeras IA diminuiu significativamente nos últimos anos. Câmeras com detecção de pessoa por inteligência artificial da Intelbras, por exemplo, já estão disponíveis a preços acessíveis para o mercado residencial e comercial. A diferença de custo mais relevante está no monitoramento ativo (mensalidade da central), não no equipamento em si. Um sistema com câmeras IA e central de monitoramento ativa tem custo mensal que varia de acordo com o número de câmeras e o nível de resposta contratado.
Qual a taxa de falsos alarmes em sistemas de segurança modernos?
Sistemas com sensores de movimento por infravermelho passivo sem IA podem ter taxa de falsos alarmes acima de 90% das notificações, provocados por animais, variações de luz e objetos em movimento. Câmeras com detecção de pessoa por IA reduzem drasticamente essa taxa ao classificar o objeto antes de disparar o alerta. O resultado prático é que os alertas que chegam ao proprietário e à central são quase todos eventos reais, o que melhora a velocidade e qualidade da resposta.
Sistemas de alarme funcionam melhor em comércios ou em residências?
Os dados acadêmicos indicam que o impacto de videomonitoramento em crimes contra a propriedade é mais consistente em ambientes privados delimitados do que em espaços públicos abertos. Tanto comércios quanto residências se beneficiam, mas o efeito em cada caso depende do tipo de crime mais frequente: comércios sofrem mais com arrombamentos fora do horário de funcionamento e furtos durante o horário comercial; residências sofrem principalmente com furtos e invasões durante a ausência dos moradores. Em ambos os casos, a presença de central de monitoramento ativa com protocolo de resposta predefinido amplifica significativamente o impacto do sistema.
Por que apenas 15% dos lares brasileiros têm sistema de segurança eletrônica?
O levantamento de 2018 da ABESE indicava 15% de penetração do mercado residencial no Brasil. Os principais fatores que limitam a adoção são: desconhecimento sobre o funcionamento e custo dos sistemas modernos, percepção de que segurança eletrônica é cara, e falta de orientação profissional sobre qual sistema é adequado para cada perfil de imóvel. Com a queda de preço das câmeras IP e a popularização dos aplicativos de monitoramento remoto, essa percepção tem mudado progressivamente, o que se reflete no crescimento consistente do setor nos últimos anos.

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